الاثنين، 21 ديسمبر 2015

CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO NO BRASIL PARA IMIGRANTES NA SEGUNDA GRANDE GUERRA

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Manhã de 2 de março de 1944, na Estação Experimental de Produção Animal de Pindamonhangaba, uma fazenda no interior de São Paulo, ouviu-se um som que não era comum no local.
Era o choro de duas crianças nascendo. Mas não eram crianças quaisquer. O choro era de Karl Johanes Braak e Gulielmo Patroni, os únicos brasileiros nascidos em um campo de concentração - e em seu próprio país.

Durante a 2a Guerra Mundial, o Brasil manteve 31 campos de concentração, para onde mandava os cidadãos imigrantes de países do Eixo - Italianos e Alemães. 




Os pais eram, alemães, e, italianos e estavam entre as centenas de pessoas que viveram esse lado vergonhoso da história brasileira, imposto pelo Estado Novo de Getúlio Vargas. 

"Era uma fazenda. O estábulo virou um dormitório, as mães ficavam num estábulo separado onde os nascituros passaram os dois primeiros anos de suas vidas".


O pai de Karl se chamava August Braak. Sua mãe, Hildegard Lange. Eles partiram de Hamburgo, na Alemanha, em direção à Cidade do Cabo, na África do Sul. Estavam a bordo de um navio de turismo advindo da Italia, chamado Windhuk, no qual August trabalhava como comissário e tesoureiro. 

O Windhuk era uma embarcação turística, mas também coletava mercadorias. Quando a 2a Guerra começou, o navio já estava no continente africano - em Lobito, Angola, recebendo um carregamento de laranjas. 

O navio não tinha como voltar para a Europa em guerra, pois estava sendo perseguido por embarcações inglesas. O capitão decidiu fugir para o Brasil. 

E a embarcação acabou chegando ao Porto de Santos disfarçada de navio japonês, com o nome de Santos Maru, em 7 de dezembro de 1939.

Assim que o navio chegou aqui, ficou evidente que ele não era japonês coisa nenhuma. 

Mas os alemães e os Italianos á bordo foram bem recebidos. Augusto e Hidelgard, bem como os outros 242 tripulantes, viviam em Santos e redondezas. Alguns moravam no próprio barco, outros, em pensões. Todos recebiam salários dos governos alemão, e italianos e levavam uma boa vida. 

Mas, em 1942, tudo mudou, o Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo - cujos cidadãos passaram a ser considerados inimigos.

"O Estado Novo, na pessoa de Getúlio Vargas precisava fazer isso [criar os campos de concentração] para se alinhar com as estratégias dos Aliados e dos EUA", explica a pesquisadora Priscila Perazzo, autora do livro Prisioneiros da Guerra (Ed. Humanitas).

Alguns estrangeiros foram mandados para presídios comuns - como os de Ilha Grande e Ilha das Flores (RJ). Mas a maioria foi para campos de concentração, organizados pelo Ministério da Justiça do Brasil. Os pais de Karl e Gulielmo foram parar num desses campos - a fazenda em Pindamonhangaba, onde ficaram confinados 136 alemães e italianos, do navio Windhuk. 

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Campo de Concentração em Pindamonhangaba/SP


Eles foram presos porque seu navio tinha chegado ao Brasil durante a guerra, coisa que o governo interpretou como uma ameaça.

Os prisioneiros não podiam manter suas tradições. Nada de ler livros em alemão ou italiano, por exemplo.
Trabalhos forçados 
A outra parte da tripulação do navio foi parar no campo de Guaratinguetá - entre eles Horst Judes, também tripulante do Windhuk, que tinha 19 anos. 

Quando desembarcou em Santos, foi um dos que ficaram vivendo no navio, até ser preso em 1942. 

No campo de concentração de Guarantinguetá, o tratamento não era tão bom. "Éramos obrigados a trabalhar no campo", conta o alemão, hoje com 87 anos e dono de uma chácara no interior de São Paulo.

A rotina no campo de Guarantinguetá era acordar cedo, pegar enxada e picareta e dar duro. Cada prisioneiro levava um número nas costas. "O meu era 17", conta Horst. 

O café da manhã tinha dois pãezinhos velhos e secos e uma caneca de café frio. 

No almoço e no jantar era só arroz com feijão.

Às quintas e aos domingos, era dia de macarrão. Mas a comida nem sempre era suficiente, e os prisioneiros dependiam de padrinhos, geralmente alemães e italianos livres, que os ajudavam de diversas maneiras.

Alemães e italianos livres? Sim. A maior parte dos imigrantes casados com brasileiros não foi presa. Iam para os campos aqueles que chegavam ao Brasil em plena guerra, ou eram suspeitos de espionagem. 

Foi graças a esse apadrinhamento que Horst conseguiu sobreviver depois de ser solto, em 1945. "Saímos do campo sem dinheiro nem emprego. Foram os padrinhos que nos ajudaram. O meu era de São Paulo. Trabalhei como mordomo e até como taxista", conta. Como a maioria desses estrangeiros, ele também constituiu uma família brasileira, e diz, hoje, gostar do país que adotou de maneira forçada. ,


Na época, o governo brasileiro fazia de tudo para mostrar que os prisioneiros de guerra eram bem tratados - o que não era verdade. O tempo de internamento variava. Houve pessoas que ficaram 3 anos presas, mas outras conseguiam ser libertadas mais cedo. Também é difícil definir exatamente o número de presos que foram mandados para os campos de concentração brasileiros entre 1942 e 1945, pois os registros são vagos ou foram destruídos.

Mas ainda existe uma ínfima documentação que revela nomes e, em alguns campos, o número exato de prisioneiros que passaram por lá. Os registros comprovam que a maioria era de alemães e italianos.

Juventude Nazo/Fascista 

Poucas pessoas foram tão afetadas com o internamento nos campos quanto Ingrid Helga Koster, cujas memórias registrou no livro Ingrid, uma História de Exílios (Ed. Sagüi). 

Nascida no Paraná, ela se tornou órfã de pai com apenas 1 ano de idade. Quando tinha 5 anos, sua mãe se casou novamente, com um alemão. Seu padrasto, Karl von Schültze, tinha migrado para o Brasil em 1920, para fugir da crise que castigava a Alemanha depois da 1a Guerra Mundial. 

Schültze chegou aqui e, junto com outros estrangeiros, começou a trabalhar em uma empresa alemã, a AEG, fazendo instalações elétricas em vários lugares do país. Ele se casou com a mãe de Ingrid no início dos anos 30, em Rio Negro, no Paraná. Pouco depois a família, já com duas outras filhas, se mudou para Joinville, em Santa Catarina, cidade dominada pela cultura alemã.

Ingrid disse se lembrar de ouvir no rádio,  que  dois chanceleres, que assumiram o poder na Alemanha e na Itália, cujo carismas a deixava emocionada. "Eu ficava arrepiada. Eles sabiam falar com o povo. 

"Nós não imaginávamos o que estava acontecendo", conta Ingrid. Os tais chanceleres eram, os aliados, Hitler e Mussolini. 

Então começou a guerra, e o pai de Ingrid pressentiu que as coisas ficariam ruins. Ele proibiu, mais de uma vez, que Ingrid se unisse ao movimento Juventude Nazo/Fascista que existia em Joinville. Na Alemanha e na Itália, esse grupo foi criado para reunir e doutrinar ideologicamente os jovens de 6 a 18 anos. 

No Brasil, o grupo assumiu um tom mais brando - servia principalmente como ponto de encontro para os imigrantes alemães e italianos. Mas o pai de Ingrid não quis nem saber. E também queimou todos os livros em alemão e italiano que tinha em casa. Entre eles o famoso Mein Kampf (Minha Luta), de Hitler“Psicologia Delle Masse escrito em 1886 pelo sociólogo italiano, Gustave Le Bon, que era o livro de cabeceira também de Hitler e Mussolini. 

Até que, em 1942, a polícia bateu à porta. "Eles chegaram procurando pelo meu pai, o levaram e ficamos dias sem notícias. Até que chegou um comunicado dizendo que ele estava preso aqui em Joinville", junto com outros alemães e italianos, suspeitos de espionagem, lembra ela, que depois de algum tempo passou a levar marmitas para seu pai no Hospital Oscar Schneider, adaptado como campo de concentração à época. 

O governo brasileiro acreditava que Karl e demais prisioneiros fossem espiões nazofascista. Por isso, o regime de confinamento deles era rígido. 

Nos dois meses em que ficou em Joinville, nenhum familiar pode visitá-lo. A marmita era entregue aos guardas. Até que certo dia, quando Ingrid foi levar a comida, lhe avisaram que seu pai, juntamente com os outros presos italianos e alemães não estavam mais lá: tinham sido transferidos para o Presídio da Ilha das Flores, no Rio de Janeiro.

Diz Ingrid: "Nossa casa e de um vizinho italiano, foram apedrejadas, picharam a suásticas nos muros. Nós éramos o inimigo." 

Daí em diante,  Ingrid Helga, só pôde visitar o padrasto uma vez por ano - no Natal. Quando a guerra acabou, Karl foi libertado por falta de provas. Mas seu chefe na AEG, Albrecht Gustav Engels, e o italiano Angelo Luigi, acabaram condenados a 8 anos de prisão, acusados de espionagem nazofascista. 

Disse  Ingrid Helga, que o pai nunca falou sobre os tempos em que ficou preso. 

Mas disse acredita que tenha sofrido muito, inclusive tortura, porque antes era uma pessoa alegre e depois se tornou calado, triste". Ela chegou a perguntar antes de o padrasto morrer, em 1966, se ele realmente espionara. Karl deu uma resposta vaga, e disse apenas que não foi condenado. 

Mesmo tendo passado por sofrimentos e humilhações, os prisioneiros alemães e italianos, não quiseram deixar o Brasil depois da guerra. Como o padrasto de Ingrid e muitos outros.

Os principais campos de Concentração no Brasil 

1. Tomé-Açú (PA)
A 200 km de Belém. Recebeu alemães, italianos e poucos japoneses.
2. Chã de Estêvão (PE)
Abrigou empregados alemães da Cia Paulista de Tecidos (hoje conhecida como Casas Pernambucanas).
3. Ilha das Flores (RJ)
Nessa cadeia, prisioneiros de guerra foram misturados com detentos comuns, onde sofreram abusos, e até tortura física, advindo, tanto das autoridades, como dos marginais brasileiros, ali também presos - uma violação das leis internacionais.
4. Pouso Alegre (MG)
 
O campo de Pouso Alegre reunia presos militares: os 62 marinheiros do navio Anneleise Essberger.
 
5. Guaratinguetá e Pindamonhangaba (SP)
 
Fazendas que pertenciam ao governo e foram adaptadas para receber alemães e italianos. 
 
6. Oscar Schneider (SC)/Hospital transformado em colônia penal.

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